no excuses

quinta-feira, 31 de março de 2011

alceu sou eu.


"Eu só acredito
Em vento que
Assanha cabeleira
Quebra portas e vidraças
E derruba prateleiras
Se fizer um assobio esquisito
Na descida da ladeira

Eu só acredito em chuva
Se molhar minha cadeira
De palhinha na varanda
Minha espreguiçadeira
Se fizer poça na rua
Acredito nessa chuva de peneira

Eu só acredito em lama
Se for escorregadeira
Como casca de banana tobogã
De fim de feira

Alceu Valença já não acredita
Na força do vento que sopra e não uiva
Na água da chuva que cai e não molha
já perdeu o medo de escorregar"

quarta-feira, 23 de março de 2011

natura


Quem não se atreve a pecar pelo simples fato de ter medo de ser o pecador perante os corretos é o primeiro errante, quando vai contra a sua verdadeira vontade de o ser.
Ninguém é sempre certo.
Errar é a mais verdadeira postura do homem desde o começo da humanidade. É um lado da força que move o pensamento sendo sempre o risco que leva o homem a dar o valor estimado ao fato de acertar. O pecado é a maçã vermelha e saborosa do jardim de Adão, e seu valor vai além da punição. Ele encontra razão na porta aberta para o mundo antes fora de seu alcance.
Todos querem sempre se sobressair perante a natureza. Achar que isso vai acontecer sempre, e tentar evitar o fato de que não vai perante sua própria vontade íntima de ser o estúpido, afim de ser mais perfeito, já é o erro.

domingo, 20 de março de 2011

O Sono


O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.

Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
É o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono! ...

(Fernando Pessoa)


melissa