Hoje de tarde peguei um ônibus vindo pra casa. Estava sentada perto da porta, exausta, depois de um dia muito cansativo, quando de repente me aparece um sujeito sorridente de aparência meio caipira, e, meio assustado, meio feliz, veio me cumprimentar. Que sujeito louco! Nunca vi cumprimentar assim com tanta simpatia alguém que nem conhece. Começamos a conversar e ele me perguntou como eu estava. Decidi ser sincera com ele e lhe disse que não estava muito bem. Ele então me contou uma história muito das esquisitas, que me deixou sem palavras, e se foi. A história é a seguinte:
"Escuta essa, mocinha! Aconteceu hoje...
Eu tava andano na rua filiz, contente, cantarolano e assuviano, dano boa tarde e bom dia na mais pura aligria de estar amando. Sempre gostei de olhá o céu e, nessa tarde especialmente, o céu tava uma maravia. Bunito pra daná. Os carro passava, as pessoa passava e o tempo passava. Mal sabia eu que, com o tempo passano, passava pra trás, mais que fulgaz, toda a harmonia que eu tinha naquele momento. A vida é coisa mesmo muito sensível. Num momento se vive, no outro se cansa. Óia, vou lhe contá, mas atente prum detalhe: a felicidade é bunita quando é bem quista. Agora, eu não sou triste não, Deus me livre! A tristeza num me pega mais, mas é que até pra por pra fora quarqué coisa de bunito há que se ter um pôco de dedicação. Então. Daí fui eu todo alegrim andano pelo mundo e me passa um vagabundo pela vista dos ói, mas que me passa também a ideia pelos miolo que num há mardade querer bem um vagabundo, se o vagabundo é que fez a escolha de se ser. Eu nada tenho a ver com isso e constuma dizer por aí que generosidade gera generosidade. Eu que num sô bobo nem nada sei bem que generosidade é coisa boa. Um vagabundo então há de merecer um generoso e simples "boa tarde". Mas cê acredita que no meio dessa situação: eu, essa cidade e o vagabundo, que por causa da pressa já tava a mil metro de distância, me vem cair um raio na cabeça? Parecia inté punição por modo de eu ter sido educado. Um raio ofensivo, pancada forte, até humilhante pra eu que tô acostumado com chuva. É que lá na minha terra já choveu demais, mas isso em outro tempo. Me veio derrepente uma vontade de rir disso! Rapaz, eu tava era filiz demais, mas ocê lembra do que eu falei? A vida é coisa sensível, num dá pra brincá. Uma hora a gente vive, na outra a gente desfalece. Me veio a última gargalhada na boca e no ar o último suspiro de satisfação. O céu não se contentou não e me lançô mais uns belos três, quatro, cinco raios na cuca. Eita céu esquisito! Tava tão azul e bunito e agora me ameaça com chuva. Pois bem, decidi por mim mesmo: vai cair mais gota de chuva do céu que de lágrima dos meus ói. Tempo ruim num me ganha mais não porque eu to voltando pra minha terrinha onde eu fiz minha casinha no ranchim e lá só entra meus amigo e alegria, tristeza num entra não. E se o céu ameaçar se fechá de novo, num tem problema não que se chuver a casinha é humilde mas tem até laje e a cidade num me prende nunquinha. Eu fecho a porta e a janela, chuvinha molha-bobo num me pega. A Simpatia eu conheço há tempos e ela vai muito lá na minha casinha, sabe? Na minha terra eu ja conheço o sinal, coisa boa bate na porta só uma vez, mas a Alegria agora é minha freguês e meus amigos... são tudo a boa vizinhança. Ocê divia era de experimentá porque um ranchim desses começa a construir é aqui de dentro óh, na cabeça! E os tijolim se chama Vontade. Se a minha vontade desse procê também eu até que havia de emprestá mas eu acho que Deus deve mesmo é de achá que cada um tem seu próprio paraíso por de dentro, né mesmo?
Inté mais ver, mocinha! Um abraço!"


