no excuses

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

sei la...


Acordar de manhã e ver a janela fechada, que coisa triste! A chuva tem dessas de ter que colocar sacolinha na cabeça pra não chegar no trabalho com cabelo despenteado ou ter que lavar roupa às onze da noite pra dar tempo de secar atrás da geladeira. Por outro lado um banho de chuva bem tomado lava a alma. Tem que ter um tempo pra tomar banho de chuva, pegar um resfriadinho banal e ficar deitada com o cabelo despenteado na cadeira da piscina olhando o céu nublado. Não há nada mais glorioso do que um céu nublado e brisa no rosto a não ser o namorico sob o céu nublado. Quantos momentos eu tenho na memória de tardes de quarta-feira com céu nublado e o afago de uma boa compania. Esse tempo frio me lembra bem aqueles dias. O nublado realmente tem esse poder nostálgico mas não tão triste quanto parece. Desde aquele tempo eu escutava sobre o namorico de tempo chuvoso, sobre a importância de ter cuidado pra não vacilar e abusar dos abraços porque a juventude apenas começava e era besteira colocar ela a perder. A juventude ainda está apenas começando. Eu acordo cedo e vou trabalhar debaixo desse mesmo tempo chuvoso de final de ano e tenho tido decência pra pagar pelas minhas próprias vontades, seguir minha rotina sem ninguém ter que me acordar cedo e fazer minhas obrigaçoes. Sou eu quem tenho que me preocupar em achar a sacolinha pro cabelo e lavar minhas roupas às onze da noite pra poder aproveitar tudo que a força da juventude colocada nas minhas mãos e cabeça, agora um tanto mais responsáveis, podem produzir. Eu gosto de ser jovem com essas ocupações tão minhas mas são aqueles mesmos tipos que agora insistem em me empurrar uma criança, um tanto velha demais pra meus neurônios já um pouco cansados. Que contradição interromper minha juventude, no momento em que eu aprendi a valorizá-la, com fraudas e comidinha congelada. A única criança que desejo manter sob os meus cuidados é essa que ainda grita, cai, rala o joelho e continua correndo dentro de mim mesma e, sentada só na cadeira da piscina eu olho o céu nublado e me afasto de constantes incoerências sentindo a brisa no rosto.
E eu tenho que esquecer! Afinal, entre as duas
é com a criança de minha alma que eu sinto gozo em viver.

sábado, 2 de outubro de 2010

197


não adianta escrever
quando não houver mais inspiração
quando tudo tiver cheiro de não e só bastar a vontade
de insistir porque é erro não registrado na memória curta
do passado.

não adianta escrever
quando o caminho for só de ida
que quando se escreve se escreve sentimento
de um instante furtado pela negligência do tempo
quando a intenção atinge a capacidade

não adianta escrever pra espantar velhos males
pra se sentir confiante
pra tentar mostrar algo
A escrita se torna reflexão interna
pois o que reflete em palavras é imagem velha
do que já foi previsto e lido em linhas mais longas.

não adianta escrever
pra encontrar a salvação que não foi preenchida
nos olhares, nas vozes e nos agires
porque a salvação realmente só está
em algum lugar entre os olhares,
as vozes e
os agires.